Ecos do Natal
Luis Fernando Verissimo
- E então, gostou?
- Gostei, Bel. Obrigada.
- É bonita a jarra, não é?
- Muito bonita.
- Você não acha um pouco ornamentada demais? Meio kitsch?
- Meio o quê?
- Meio kitsch. Assim, de mau gosto.
- Não. De forma alguma. Aliás, gostei da jarra desde a primeira vez que a vi.
- Você já tinha visto?
- Não só vi como comprei.
- Ah, Rosa. Não me diz que você já tem uma igual!
- Não. Comprei para dar de presente a uma amiga. No Natal passado.
- Ah, é?
- É, Bel. Dei pra você.
- Rosa... Eu... Ahn... Mmm... Quer dizer...
- Tudo bem. Bel. Se você não gostou da jarra, se achou muito kitsch, poderia ter falado. Afinal, nós éramos amigas.
- Éramos, Rosa? Ainda somos!
- Eu escolho o tempo do verbo, Bel.
O mendigo se ajeitou sobre um monte de palha para dormir. Teve que empurrar um cordeiro para ter espaço, e estranhou quando o cordeiro caiu para um lado e ficou ali, com as patas estendidas, como uma estátua tombada. Quando acordou de manhã, o mendigo viu que todos os animais ao seu redor eram bonecos. Até as galinhas eram empalhadas E o bebê ao lado do qual ele se deitara, no monte de palha, era de louça.
Chegou um homem vestindo uma espécie de camisolão comprido e disse:
- Você não pode ficar aqui.
- Por que não?
- Daqui a pouco vai começar a representação.
- Que representação?
Chegou uma mulher também vestindo um camisolão.
- Você está no meu lugar - disse a mulher para o mendigo.
- O seu lugar? - perguntou o mendigo.
- Eu sou a mãe do bebê. Preciso ficar do lado dele. Começou a chegar mais gente. Três caras de turbante. Um deles repetiu para o mendigo:
-Você vai ter que sair daqui.
- Não saio - disse o mendigo.
Já tinham lhe tirado da sua cama. Não recuaria mais.
- Qual é o seu papel? - quis saber outro de turbante.
- Papel?
- Na representação.
O mendigo pensou um pouco. Depois sugeriu:
- Ator convidado?
Poderia ser um tio da criança. Um popular que passava pela estrebaria, ouvira choro do bebê e resolvera entrar. Ou um mendigo mesmo, inserido na cena para ressaltar seu cunho social a lembrar o público da realidade atual. Fosse o que fosse, ele não sairia. Ficou. Afinal, também era filho de Deus. E, inclusive, improvisou uma fala durante a apresentação. Depois que um dos turbantes anunciou qual era seu presente para o menino recém-nascido, chamou-o para um lado e disse:
- Sobre esse ouro...
Domingo, 27 de dezembro de 2009.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.